EM CARRO DE APLICATIVO (papo cornônico)
Por Joel Marinho
Entre idas e vindas nos aplicativos de transporte de pessoas encontramos motoristas de todas as naturezas. Há os calados que mal dão bom dia e nenhum sorriso, o semblante tão fechado tal qual uma viúva que já queria se livrar do finado marido e receber a herança, mas por conta do compromisso social precisa ficar com o olhar neutro, sem voz e sem sorriso.
Entretanto, há aqueles que mesmo antes de entrarmos no carro já abre um sorriso do tamanho do deserto do Saara, fala do tempo, do preço da gasolina, do governo, da mulher... Ah, esses são muitos, sobretudo quando estão sendo traídos, estão traindo e/ou acabaram de sair de uma relação.
Pois bem, dia desses pedi um carro de aplicativo e em uma viagem que durou cerca de 20 minutos me contou toda a sua triste situação “cornônica”. E a história começou mais ou menos assim.
- Meu amigo, esse negócio de se relacionar com mulheres mais novas, principalmente quando já chegamos aos 60 anos, é uma coisa complicada, sobretudo quando se é casado e ela também, ainda fica mais complicado quando essa mulher é da “igreja” e você conhece o marido dela, pois é membro da mesma igreja.
- Essa mulher começou conversar com a minha esposa, visto que participamos dos mesmos cultos, foi ganhando confiança indo em casa ao ponto de minha mulher relatar que já estava entrando na menopausa e não tinha mais tanta vontade de ter relações comigo, mas que eu continuava ainda com fogo. Foi o suficiente para ela um dia esperar minha esposa sair de casa e aí praticamente me “atacou”, como a carne é fraca acabei cedendo a tentação, foi então que o inferno começou.
- Como o marido dela viajava, um dia desconfiou e colocou uma câmera na casa, de onde ele estava acionou a família, pois viu quando eu entrei na sua residência. Logo chegou a família todinha e me mantiveram preso na casa, além de me dar uma surra, peia para dez jumentos amuados eu levei foi sozinho deles. Quando consegui sair da situação jurei que nunca mais chegaria perto dela.
- Depois de alguns dias ela voltou a entrar em contato comigo e acabou me pedindo emprestado 600 reais, na verdade era um pretexto para se reaproximar, pois nunca recebi de volta e eu como sou besta acabei cedendo novamente e mandando o dinheiro a ela. Hoje não sei mais o que faço, pois apesar de tudo eu gosto demais daquela danada, mas ela não deixa o marido por nada, nem ele deixa dela. Essa foi a enrascada que eu me meti depois de velho, mas não desejo a ninguém.
Além disso me contou toda a vida dele, os sofrimentos desde criança, a separação da mãe com o pai, as brigas e a luta que foi ter que dar conta de sua própria vida ainda com 12 anos de idade.
Chegou ao meu destino, paguei, agradeci a corrida e a conversa e ainda disse a ele: cuidado com essas coisas com mulheres casadas, esse negócio de chifre nem todo mundo reage numa boa. Ele deu um sorriso, meteu uma primeira marcha e saiu lentamente em busca de outros clientes e outros ouvidos para contar suas lamúrias sem me pedir nenhum segredo. Se fosse 50 minutos teria cobrado a consulta psicológica, pois na verdade ele queria só conversar e a profissão dele é perfeita para isso, ser ouvido por alguém, quer você queira ou não porque não pode correr dali.