Joel Marinho
Entre letras e versos
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O BURRO, O REI E O PRISIONEIRO

Conta uma lenda antiga

De a muito tempo passado

Que prenderam um ladrão pobre

Porque havia roubado

Meia dúzia de galinha

E uma cuia de farinha

Para comer um guisado.

 

E a notícia se espalhou

Por todo aquele castelo

Disseram as autoridades

Prenderemos esse amarelo

E vai servir de lição

Aqui não fica ladrão

Ainda mais “pé de chinelo”.

 

Em menos de doze horas

Encontraram o malfazejo

Trouxeram para a masmorra

Sem água, sem pão nem queijo

Um guarda logo o zombou

- Malandro “tu se ferrou”

Nessa cela de despejo.

 

Sem ter quem o defendesse

Foi sumariamente julgado

Não houve apelação

Nem sequer advogado

Fazendo cumprir a lei

E com o aval do rei

Foi à forca condenado.

 

E marcaram logo o dia

Para a sua execução

Nervoso, porém sereno

Com aquela situação

Pela grade via a luz

Pensava já ser Jesus

Para lhe dar o perdão.

 

Logo no dia seguinte

Iria ser enforcado

A noite pouco dormiu,

Mas ficou ali deitado

Pensando forte na vida

Pra encontrar uma saída

E ter seus dias esticados.

De manhã se levantou

E viu através da grade

Um burrinho ali parado

Sem fazer nenhum alarde

Disse, jumento, irmão

A ti faço confissão,

Pois já vou morrer a tarde.

 

Podia estar livre dessa,

Mas o mundo de ilusão

De conquistar pelo roubo

Me fez um grande ladrão

Roubei aquelas galinhas

E uma cuia de farinha

Que nem tinha precisão.

 

Nesse momento passou

Um guarda observando

Vendo aquela presepada

Aos outros foi alarmando

Que o ladrão condenado

Estava em um papo danado

Com o burro conversando.

 

E logo aquela fofoca

Se espalhou no castelo

Chegando até o rei

As conversas do flagelo

Que logo se interessou

E aos guardas ordenou

Lhe trazer o amarelo.

 

Ao chegar próximo ao rei

Fez gesto de obediência,

Porém em nenhum momento

Ele lhe pediu clemência

E sem saber o que fez

Só queria ouvir do rei

Com a máxima paciência.

 

O rei disse, então você

Ensina burro falar

Ele disse, ora essa

Que esse povo vem contar,

Mas não sou de falsidade

Ensino sim, majestade

Basta um tempinho me dar.

 

O rei ficou curioso

E deu na mesa um murro

Você terá mais um ano

Para ensinar o burro

O perdão tu vais ganhar

Se ele aprender falar

E desaprender dar zurros.

 

Hoje tu ias morrer

Com uma morte ligeira

Mas se perder a missão

Vais morrer pela peixeira

Arranco cada pedaço

Cada perna e cada braço

Uma morte desordeira.

 

Sim senhor, eu agradeço

Essa é a minha missão

A partir desse momento

Cumprirei com precisão

Farei o burro falar

E nunca mais vai zurrar

Que ele queira ou não.

 

Se despediu e saiu

E ao encontrar um amigo

Que falou assim a ele

Não tens noção do perigo

Tu não terás esperança

Te conheço desde criança

Vais sofrer grande castigo.

 

Tu nem sabe escrever

Vai fazer burro falar

Podia ter morte rápida,

Mas quis ao rei encarar

Acho ser um grande engano

Tu esperar mais um ano

E o sofrimento aumentar.

 

Disse ele, não me lembro

De ter pedido conselhos,

Mas me deu a liberdade

De o fazer olhar no espelho

Cada dia que eu ganhar

As coisas podem mudar

E o azul ficar vermelho.

 

O amigo lhe olhou

Disse, não estou entendendo

Ele disse, é muito simples

E o tempo está correndo

No decorrer de um ano

Muitas coisas saem de plano

E assim eu vou vivendo.

 

Veja daqui há um ano

O que pode acontecer

Possa ser até que eu morra

Quem sabe o burro morrer

Ou quem sabe até o rei

E a morte com sua lei

Faça o desaparecer.

 

Entenda que em um ano

Há muitas probabilidades

Nesse cálculo matemático

Tudo é possibilidade

E se nada acontecer

Ganho um ano pra morrer

Enganando a majestade.

 

Fica a nós a lição

Nesse mundo de maldade

Viva cada dia seu

Com prazer e com vontade

Construa cada momento

Com muito contentamento

Pra fugir da ansiedade.

JOEL MARINHO

 

IMAGEM: FONTE GOOGLE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Joel Marinho
Enviado por Joel Marinho em 20/03/2026
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