O BURRO, O REI E O PRISIONEIRO
Conta uma lenda antiga
De a muito tempo passado
Que prenderam um ladrão pobre
Porque havia roubado
Meia dúzia de galinha
E uma cuia de farinha
Para comer um guisado.
E a notícia se espalhou
Por todo aquele castelo
Disseram as autoridades
Prenderemos esse amarelo
E vai servir de lição
Aqui não fica ladrão
Ainda mais “pé de chinelo”.
Em menos de doze horas
Encontraram o malfazejo
Trouxeram para a masmorra
Sem água, sem pão nem queijo
Um guarda logo o zombou
- Malandro “tu se ferrou”
Nessa cela de despejo.
Sem ter quem o defendesse
Foi sumariamente julgado
Não houve apelação
Nem sequer advogado
Fazendo cumprir a lei
E com o aval do rei
Foi à forca condenado.
E marcaram logo o dia
Para a sua execução
Nervoso, porém sereno
Com aquela situação
Pela grade via a luz
Pensava já ser Jesus
Para lhe dar o perdão.
Logo no dia seguinte
Iria ser enforcado
A noite pouco dormiu,
Mas ficou ali deitado
Pensando forte na vida
Pra encontrar uma saída
E ter seus dias esticados.
De manhã se levantou
E viu através da grade
Um burrinho ali parado
Sem fazer nenhum alarde
Disse, jumento, irmão
A ti faço confissão,
Pois já vou morrer a tarde.
Podia estar livre dessa,
Mas o mundo de ilusão
De conquistar pelo roubo
Me fez um grande ladrão
Roubei aquelas galinhas
E uma cuia de farinha
Que nem tinha precisão.
Nesse momento passou
Um guarda observando
Vendo aquela presepada
Aos outros foi alarmando
Que o ladrão condenado
Estava em um papo danado
Com o burro conversando.
E logo aquela fofoca
Se espalhou no castelo
Chegando até o rei
As conversas do flagelo
Que logo se interessou
E aos guardas ordenou
Lhe trazer o amarelo.
Ao chegar próximo ao rei
Fez gesto de obediência,
Porém em nenhum momento
Ele lhe pediu clemência
E sem saber o que fez
Só queria ouvir do rei
Com a máxima paciência.
O rei disse, então você
Ensina burro falar
Ele disse, ora essa
Que esse povo vem contar,
Mas não sou de falsidade
Ensino sim, majestade
Basta um tempinho me dar.
O rei ficou curioso
E deu na mesa um murro
Você terá mais um ano
Para ensinar o burro
O perdão tu vais ganhar
Se ele aprender falar
E desaprender dar zurros.
Hoje tu ias morrer
Com uma morte ligeira
Mas se perder a missão
Vais morrer pela peixeira
Arranco cada pedaço
Cada perna e cada braço
Uma morte desordeira.
Sim senhor, eu agradeço
Essa é a minha missão
A partir desse momento
Cumprirei com precisão
Farei o burro falar
E nunca mais vai zurrar
Que ele queira ou não.
Se despediu e saiu
E ao encontrar um amigo
Que falou assim a ele
Não tens noção do perigo
Tu não terás esperança
Te conheço desde criança
Vais sofrer grande castigo.
Tu nem sabe escrever
Vai fazer burro falar
Podia ter morte rápida,
Mas quis ao rei encarar
Acho ser um grande engano
Tu esperar mais um ano
E o sofrimento aumentar.
Disse ele, não me lembro
De ter pedido conselhos,
Mas me deu a liberdade
De o fazer olhar no espelho
Cada dia que eu ganhar
As coisas podem mudar
E o azul ficar vermelho.
O amigo lhe olhou
Disse, não estou entendendo
Ele disse, é muito simples
E o tempo está correndo
No decorrer de um ano
Muitas coisas saem de plano
E assim eu vou vivendo.
Veja daqui há um ano
O que pode acontecer
Possa ser até que eu morra
Quem sabe o burro morrer
Ou quem sabe até o rei
E a morte com sua lei
Faça o desaparecer.
Entenda que em um ano
Há muitas probabilidades
Nesse cálculo matemático
Tudo é possibilidade
E se nada acontecer
Ganho um ano pra morrer
Enganando a majestade.
Fica a nós a lição
Nesse mundo de maldade
Viva cada dia seu
Com prazer e com vontade
Construa cada momento
Com muito contentamento
Pra fugir da ansiedade.
JOEL MARINHO
IMAGEM: FONTE GOOGLE