Joel Marinho
Entre letras e versos
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TODO CASTIGO PARA QUEM BATE EM MULHER É POUCO

POR JOEL MARINHO

Rosalva tornou-se uma grande mulher, chegou à região de Laguinhos com seus pais ainda muito nova, tinha cerca de cinco anos. Naquela região, como de costume as meninas casavam novinhas e com quinze anos Rosalva casou.

Cara de poucos amigos não era de conversar com ninguém, muitos até se assustaram quando Joaquim, filho de José Adolfo, um português que também não nascera na região se engraçou para o lado da menina e a “desgraçou”, sim, esse era o termo que se usava na década de 1950 para as moças que por ventura tinham uma relação antes do casamento. Pois é, uma história parecida a tantas outras que você já deve ter ouvido, mas essa é diferente, você vai ver. Bem, talvez, nem eu faço a mínima ideia de como será o final dessa história, ela surgiu do nada, das vozes da minha cabeça.

E por falar em vozes da cabeça...

Após ser “desgraçada” Rosalva começou a sentir enjoo, era verme, só podia ser pensava seus pais que pelo comportamento antissocial da menina jamais pensariam que ela se entregaria a alguém, principalmente àquele filhote de português sem cor, nariz que parecia um bico de gavião e um par de orelhas que um vento de 60 quilômetros por hora fazia decolar o infeliz.

Rodolfo, pai de Rosalva a levou ao médico que ficava há cinco léguas de distância montada no lombo de um jumento que peidava mais que um condenado no sol quente. A cada peido do bicho ela enjoava, entojada como estava descia para vomitar. Do meio para o fim ela já nem descia mais, até porque não tinha mais nada no estômago, nem água.

Enfim aquela sofrida viagem acabou, mas ainda amargou duas horas sentada no banco duro do postinho de saúde para ser atendida pelo único médico que teve coragem de trabalhar naquela região tão longínqua.

Meia hora dentro do consultório, algo nada convencional, visto já ser quase meio dia e ainda havia gente para ser atendido.

Então qual era o problema da vagareza do médico?

Cisma, medo, ele já sabia como era bombástica uma notícia daquelas ali para aquele povo, era vergonha total e poderia ocasionar até em morte caso o “malfeitor” não casasse com a moça “desgraçada”.

Enfim criou coragem e foi chamar o pai. Pediu para Rosalva sair da sala e esperar lá fora.

- Sente, seu Rodolfo!

Rodolfo já nervoso sentou e perguntou:

- É grave, doutor?

- Não, não tanto, mas depende do seu ponto de vista.

O coração de Rodolfo acelerou e já meio exaltado quase que gritou:

- Doutor, sem arrodeio, fale logo!

- Bem, o problema da sua filha foi “comida”!

Com um suspiro de alívio Rodolfo falou:

- Ufa, doutor, menos mal! E eu já temendo ser coisa grave.

- Pois é seu Rodolfo, não é grave.

- Então doutor?

- Não é grave seu Rodolfo, é grávida!

Naquele momento o chão faltou nos pés de Rodolfo que rodopiou num giro de 360 graus, puxou sua “lambedeira” da cintura e gritou:

- Vou matar esse infeliz!

- Calma seu Rodolfo, pelo amor de Deus!

- Calma, doutor? Como calma, doutor? A minha filha foi “desgraçada” e o senhor me pede calma!

- Eu vou matar esse infeliz, quem quer que seja.

- Ufa, ainda bem que não foi eu, resmungou o doutor.

- O que doutor?

- Nada não seu Rodolfo, apenas pensando alto.

O doutor receitou uns remédios para acalmar aquela ânsia de vômito e falou a Rodolfo levar sua filha de volta para casa que aquilo ia passar em alguns dias.

Sem dizer uma palavra a viagem toda de volta os dois chegaram em casa já no cair da noite.

Rosalva era uma menina realmente que não tinha noção nenhuma do que estava acontecendo, sabia que alguma coisa não estava bem sentindo seu corpo se transformar. Afinal nem seu pai nem sua mãe haviam conversado com ela sobre sexo e gravidez, ali aquilo era tabu total.

A noite ele chamou sua mulher Josefa e falou:

- Nossa filha foi desgraçada, Josefa!

- O que você está falando, homem? Pelo amor de Deus!

- Isso mesmo, Josefa e a culpa é sua que não ficou de olho nela, a culpa é sua, desgraçada!

E amanhã ela vai me falar quem foi esse desgraçado, foi arrancar os dois olhos dele e dar para o cachorro comer e depois capo esse miserável.

Josefa ficou desesperada, mesmo já tendo apanhado algumas vezes de Rodolfo nunca tinha visto ele com um olhar tão colérico daquela forma.

Às seis horas da manhã Rodolfo acordou Rosalva, sua única filha e mandou ela sentar na cadeira, enquanto ele e a mulher ficavam de pé.

- Fala Rosalva, quem foi o infeliz que te “desgraçou”?

- Do que o senhor está falando, pai?

- Fala, não se faça de desentendida senão eu quebro a tua cara, sua infeliz!

- Calma, Rodolfo! Falou dona Josefa.

Nem terminou direito de falar já levou uma bordoada no meio da cara e caiu quase desmaiada no chão.

Rosalva levantou e correu na direção da mãe, mas antes de chegar até ela foi segura pelos cabelos. Seu pai com aquele olhar de ira lhe perguntou mais uma vez:

- Quem foi o desgraçado que te “desgraçou” sua miserável?

Tomado pela ira Rodolfo empurrou a filha em cima da mãe que atordoada tentava se levantar.

Rosalva meio tonta pelo empurrão se abraçou à mãe e gritou ao pai:

- Foi Joaquim, filho de seu José Adolfo.

Bufando como se fosse um touro na arena o pai da menina meteu a faca na cintura e rumou para a casa dos portugueses no intuito de resolver o mais rápido possível aquele entreveiro.

Foi chegando e batendo forte na porta da casa dos portugueses como se fosse derrubar.

Quem apareceu foi justamente o português orelhudo, sem cor e franzino.

- Cabra sem vergonha, se apronta pra apanhar, seu filho da p...!

- Calma seu Rodolfo, vamos conversar!

- Conversar o que cabra safado?! Vou te bater só de cinto!

Àquele momento o barulho havia chamado a atenção dos vizinhos das duas únicas casas ali perto.

Rodolfo puxou a faca e partiu pra cima do português, enquanto seu pai José Adolfo aparecia na porta e com aquele sotaque forte gritou:

- Que porrrra e essa, gajo?

Rodolfo não ouvia mais ninguém e partiu como um boi brabo dentro da arena que tenta golpear o seu oponente.

Não se ouviu mais nada.

Aquela luz brilhante, aquele povo de branco ao seu redor, pobre coitado havia também se desgraçado e agora estava rodeado de gente, mas sua vista rodava e em pouco tempo apagava totalmente.

Quando acordou sua visão foi retornando devagar, aquele barulho de máquina e um monte de fiozinho ligado à sua cabeça. Uma dor terrível no queixo e aos poucos sentia ter sido enfaixado.

Teria morrido? Será que aquilo era um sonho ou teria virado uma múmia egípcia?

Tentou falar, mas não havia a mínima possibilidade.

Mas que lugar era aquele?

Enfim foi acostumando o cérebro e entendendo que era um hospital

Ao seu lado apareceu Josefa que apesar de tudo tinha uma cara de satisfação, um ar de alma lavada.

Rodolfo então entendeu, estava muito distante de casa, só não entendeu o que havia acontecido, aquele golpe certeiro daquele “moleque” orelhudo que havia “desgraçado” sua filha também desgraçou seu queixo o qual foi submetido a uma cirurgia de dez horas para refazer todo o osso do maxilar.

Rodolfo passou mais de um mês no hospital comendo pelo canudinho para deixar de “brutança” e nenhuma notícia sabia de sua terra e de sua casa, pois ali tanto ele quanto a mulher ficavam incomunicável, a única comunicação possível ali era através de carta.

Enfim, chegou o dia da volta.

Foram horas até chegar em casa. Ali estava tudo deserto, não havia ninguém.

- Onde está Rosalva? Indagou ele a mulher?

- Provavelmente foi embora depois da besteira que você cometeu!

As lágrimas nos olhos de Rodolfo rolaram. Quanto arrependimento.

De repente ouviu o trotar de uns animais e o português orelhudo montado em um dos cavalos com uma calça preta e de paletó. Seu sapato também preto estava impecável.

- Bom dia, seu Rodolfo! Podemos agora dialogar?

Com um olhar de vergonha Rodolfo baixou a vista e apenas assentiu com a cabeça.

- Pois bem, a partir de hoje o senhor passa a ser meu sogro, Rosalva já nos espera na igreja juntamente com o padre e os convidados para celebrar nosso casamento. Eu não vim aqui pedir a mão dela ao senhor, vim apenas para levá-los até sua filha e abençoe nossa união. Poxa, seu Rodolfo, seria tão mais fácil se resolvêssemos as nossas diferenças a base da conversa e não na violência. Reconheço o meu erro, mas estou pronto a sanar essa lacuna. Ah, tem mais uma coisinha, a partir de hoje não será mais admitido se bater em mulher, espero que isso fique claro e o senhor tenha entendido. Venha, me dê um abraço e vamos selar essa nossa amizade familiar.

Os dois se abraçaram. Em alguns minutos estavam prontos e saíram montados a cavalo rumo a igreja onde foi celebrado aquele casamento.

Não foi um conto de fadas, mas dizem que o português fez de tudo para dar o melhor a sua mulher com quem teve cinco filhos e Rodolfo nunca mais passou a agredir as pessoas, nem mesmo a dona Josefa que nunca merecera levar sequer um esculacho quanto mais um tapa na cara.

Rosalva se tornou uma mulher conversadeira e bastante respeitada na região de Laguinhos, sua história rodou o mundo e acabou virando conto na cabeça do poeta.

Joel Marinho
Enviado por Joel Marinho em 25/03/2026
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