Joel Marinho
Entre letras e versos
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BURRICE (Fábulas de Esopo em cordel)

POR JOEL MARINHO

Dois burrinhos trabalhavam

Sempre no mesmo caminho

Cada qual com uma carga

E como andavam sozinhos

Eles iam trocando ideias

Longe de qualquer plateia

Conversavam os dois burrinhos.

 

Um transportava algodão

Outro transportava sal

Mas com relação ao peso

Digamos que era igual

E assim eles viviam

Reclamar não se atreviam

Daquela sorte fatal.

 

O burrinho do algodão

Julgava-se mais esperto

E o burrinho do sal

Até achava correto

Sempre era o mais medroso

Sendo o outro corajoso

Queria ele por perto.

 

Mais um dia se encontraram

Disse o burrinho medroso

Tenhamos muito cuidado

O caminho é perigoso

 E hoje choveu bastante

O rio está gigante

Com seus braços caudalosos.

 

O outro disse, ora essa!

Já vens com essa besteira

Não tenho medo de água

Sou nadador de primeira

E se você afundar

Prometo lhe ajudar

E nadar até a beira.

 

Até porque já há rastros

Aqui já passou alguém

E se alguém já passou

Nós passaremos também

Não vou ficar me esquivando

Com o medo me assombrando

Isso a mim não convém.

 

E assim foram conversando

Até as margens do rio

O burrinho com algodão

Até um pouco arredio

Disse ao burrinho com sal

Pra você não passar mal

Passe que já está frio.

 

Nisso o burrinho medroso

Pensou que água com sal

Derrete-se um com o outro

Em um beijo fraternal

E assim na água pulou

Devagarinho nadou

Vencendo o medo, afinal.

 

O burrinho com algodão

A crina logo ouriçou

E com seu modo soberba

Para ele mesmo falou

Não existe rio caudaloso

Não perco a um medroso

Passo por onde passou.

 

Assim se jogou na água

E na medida que nadava

O algodão na sua costa

A cada vez mais pesava

De repente sufocou

Com a água se engasgou

E seu corpo afundava.

 

Do outro lado o burrinho

Começou a passar mal

Viu que o seu amiguinho

Tinha ali o seu final

Só gritava, meu amigo

Tu zombaste do perigo

E agora pra ti “foi sal”.

 

Vendo que estava sem jeito

Teve que seguir viagem

Nunca pensou ser herói

Tampouco mostrar coragem

É assim que os “covardes”

Vivem um pouco até mais tarde

Mantendo a humildade.

 

A vida é tudo que importa

Proteja seu maior bem

E a nós fica a lição

A você e a mim também

Não torne sua vida amarga

E jamais meça sua carga

Pela carga de ninguém.

 

Porque todo mundo tem

Um fardo pra carregar

E pelos mesmos caminhos

Podemos até caminhar

Mas de forma diferente

Os sofrimentos da gente

Ninguém pode mensurar.

JOEL MARNHO

 

 

 

 

 

 

 

 

Joel Marinho
Enviado por Joel Marinho em 25/03/2026
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