Joel Marinho
Entre letras e versos
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O QUE É O FUTEBOL?

POR JOEL MARINHO

Do ponto de vista literal, o futebol é apenas um amontoado de vinte e dois jogadores, um juiz de campo e outros auxiliares, uma bola, duas traves com redes, dentro de um espaço retangular, com um monte de regras e um único objetivo: fazer o gol. O gol, momento mágico, êxtase de um lado, choro do outro, talvez seja isso que cria a aura dessa magia inexplicável, desse esporte inventado pelos ingleses e abraçado por quase todo o planeta Terra.

Bem, mas o futebol vai além de regras e sentimentos de vitórias e perdas. Com o decorrer do tempo, se tornou também econômico e, diga-se de passagem, gera bastante dinheiro e isso, apesar de ser algo bom, tem seu lado sombrio, pois esse rendimento todo faz com que atraia pessoas de má índole para o meio, fazendo com que a magia passe a ser vista com suspeita.

Mas o ambiente futebolístico, apesar dessa desconfiança, é também político e geopolítico. Por um espaço curto de tempo, de um mês (a Copa do Mundo, que ocorre de quatro em quatro anos), pode-se perceber algo muito mais mágico: a união de torcedores sem grandes atritos, o abraçar de outras seleções momentaneamente e até unir, nesse tempo, países que estão em guerras, como estamos vendo o caso dos Estados Unidos da América e o Irã.

Do ponto de vista geográfico, eis que, de repente, todos “descobrem” países tão pequenos, no sentido territorial, econômico e demográfico, que sempre estiveram ali, porém nunca haviam entrado no rol internacional, como foi o caso de Cabo Verde na Copa de 2026.

Que país é esse? Em que continente está situado? Quem conhece, de fato, sua geografia e história?

Localizado na costa do Oceano Atlântico, na África, é composto por 10 ilhas vulcânicas e mede 4.033 km², com cerca de 560 mil habitantes. Do ponto de vista do Brasil, por exemplo, é 5 vezes menor que Sergipe, o menor estado brasileiro no sentido territorial. Se pegasse toda a sua população, preencheria exatamente 6 vezes o AT&T Stadium, o maior estádio dessa Copa, localizado em Arlington, no Texas (EUA), com capacidade para aproximadamente 94.000 espectadores.

Então, a magia da Copa nos presenteia com essa mágica: uma nação pobre que foi, assim como o Brasil, colonizada por Portugal, servindo como entreposto comercial durante o período colonial; uma nação que tem como existência apenas 51 anos de idade, pois sua independência ocorreu somente em 5 de julho de 1975, quando Portugal se retirou do arquipélago após a Revolução dos Cravos, em 1974.

A pobreza do país é uma das heranças deixadas pelos portugueses, mas o que se viu nessa Copa foi uma nação que não se curva frente ao “impossível”. Jogadores com salários pífios, se formos fazer uma relação com o salário dos grandes jogadores que atuam na Europa. O próprio goleiro Vozinha, que trabalha como eletricista para complementar a renda e que não tinha 15 mil dólares para levar a mãe aos Estados Unidos da América, é um exemplo de resiliência e luta.

O que se viu foi uma seleção formada por um grupo coeso, com disciplina e um sonho: se divertir ao máximo em um lugar no qual eles eram vistos com desconfiança. Um lugar onde só as lendas do futebol costumam aparecer e dar espetáculo com golaços e dribles desconcertantes. Mas eles estavam ali, entraram em campo contra a poderosa Espanha, campeã do mundo, que sentiu o peso da mão de Vozinha e dos pés de seus companheiros.

Em seguida, o poderoso e bicampeão Uruguai, que viu, de queixo caído, o poder de quem luta com a força de um guerreiro capaz de tudo para defender sua pátria. Por fim, a Arábia Saudita, que também foi parada pelos “Tubarões Azuis” e, enfim, a classificação para a fase do "mata-mata" contra a poderosa e atual campeã do Mundo, Argentina. Todos diziam: "Agora é uma goleada", mas o que se viu em campo foi um time entregue à “guerra” até a última gota de suor.

Enfim, venceu a lógica, mas ficou uma lição ao mundo: Cabo Verde é o sinônimo da resiliência, luta e coragem. Coragem de encarar de frente seus adversários, respeitando-os, mas nunca com subserviência, típico de quem conhece sua própria história e sabe quem realmente é.

Mas, enfim, a pergunta inicial do título é: O que é o futebol?

O futebol é isso. Se olharmos ele apenas pelo lado literal, é tão chato quanto uma febre em dia de chuva: um monte de homens correndo atrás de uma bola com o objetivo de colocá-la em um retângulo, o gol. Sobre a ótica econômica o futebol movimenta bilhões de dólares e gera milhões de empregos. Sob a perspectiva política e geopolítica, dá visibilidade a países que pouco conhecemos e sobre os quais quase nada sabemos de sua história, geografia e cultura. E, aliado às redes sociais, amplia esse conhecimento de forma extraordinária.

É provável que milhões de pessoas tenham recorrido à internet para descobrir onde fica Cabo Verde, como vive seu povo, quais são seus costumes e como aquela seleção chegou tão longe. Depois desta Copa, o arquipélago jamais voltará a ser apenas um pequeno ponto perdido no mapa-múndi, despercebido aos nossos olhos. O futebol se encarregou de trazer essa aula multidisciplinar de História, Geografia, Sociologia e humanidade, pois isso é o futebol, entretenimento, mas também econômico, político e geopolítico.

 

Joel Marinho
Enviado por Joel Marinho em 04/07/2026
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