A soberba sempre foi
O mal da humanidade.
O soberbo se dá mal,
Seja cedo ou seja tarde.
Vou lhe contar essa estória
Que trago em minha memória;
Isso foi pura verdade.
Na real, mesmo, eu não sei
Se foi verdade ou não.
Porém, se não for verdade,
Que isso sirva de lição.
Basta você se ligar
À estória que vou narrar;
Ouça-me com atenção!
Certo dia apareceu,
Num vilarejo distante,
Um doutor muito sabido,
No entanto, deselegante.
Foi fazer uma pesquisa,
Mas quase no chão não pisa;
Mal-educado, arrogante.
Era o tipo de pessoa
Difícil de aturar.
Só o seu saber valia,
Não sabia respeitar.
Com idoso, mulher, criança,
Falava com arrogância;
Não deixava ninguém falar.
Foi fazer uma pesquisa,
Mas, para poder chegar
Àquilo que procurava,
Teria que atravessar.
Por isso, logo buscou
Aquele nobre senhor
Que chamavam de Osmar.
Seu Osmar, homem do mato,
Nunca frequentou colégio.
Escrever nunca aprendeu,
Não teve esse privilégio.
Porém, das coisas do mato,
Onça, jacaré e gato,
Conhecia os sortilégios.
Entraram os dois na canoa,
Seu Osmar sempre calado.
Com o remo em suas mãos,
Ele estava concentrado.
Então o nobre doutor
Uma pergunta mandou,
Tendo o silêncio quebrado.
— O senhor, por obséquio,
Sabe quem foi Dom João?
A resposta veio seca:
— Não, senhor, eu não sei, não!
Com o ar de vencedor,
O sorriso do doutor
Inundou sua feição.
— Vou fazer outra pergunta;
Essa é fácil pra você.
Quais elementos da água
Que acabou de beber?
Com um sorriso escondido,
Disse Osmar, constrangido:
— Eu não sei lhe responder.
Depois de tantas perguntas,
Osmar, bastante humilhado,
Pressentiu que a canoa
Ficou com o casco molhado.
Assim, ele percebeu
Que a desgraça se deu,
E tudo estava acabado.
Ele olhou para o doutor,
Vendo a canoa inundar,
Fez uma única pergunta:
— O senhor sabe nadar?
A negativa se deu,
E o arrogante morreu;
Não demorou a afundar.
Seu Osmar bateu os braços,
Chegando às margens do rio.
Gritava ele: — Doutor!
E nenhuma resposta ouviu.
Ficou só observando
A maresia puxando;
Logo a canoa sumiu.
Acabou-se a arrogância,
Todo aquele saber morreu.
E as palavras bonitas
Ali desapareceram.
Com ele foi-se o legado,
Tudo que havia estudado;
Nada daquilo valeu.
Fica para nós essa lição:
Precisamos entender
Que todos os seres humanos
Carregam em si um saber.
Em cada realidade,
Cada um tem validade;
Cabe a nós compreender.
Respeite os outros saberes,
Cuidado com a vaidade.
Nem sempre o que aprendemos
É a absoluta verdade.
Não adianta estudar,
Se não aprendeu a nadar
E a água a canoa invade.
Saber a fórmula da água
Não adianta de nada,
Pois, se não souber nadar,
Terá fim sua jornada.
Afunda a sua arrogância,
Perde toda a esperança
Numa canoa furada.
Eu por aqui vou ficando,
Pois está ficando tarde.
Não gosto da arrogância
Da "absoluta" verdade.
Sou filho de agricultor;
Mesmo eu chegando a doutor,
Jamais perco a humildade.
JOEL MARINHO