FILHO DA GUERRA
De repente, um estrondo.
O ar rarefeito,
dificuldade para respirar.
Pernas no que sobrou de telhado,
cabeças no chão, empoeiradas,
louças estraçalhadas,
tudo se misturando
com restos de gente,
meus nobres parentes.
Cheiro de sangue e poeira
e aquele maldito cheiro de morte.
Foi sorte? Talvez!
Ou não ter sobrevivido.
Agora estou perdido,
sem eira nem beira,
sem lar, sem raiz.
Tal qual D. Quixote,
sou um cavaleiro andante,
porém sem cavalo,
sem asno, sem nada.
Na infinita estrada,
me guiam as estrelas
e a luz do luar.
Sou filho da guerra,
sem pais, sem irmãos, sem pátria,
vagando no mundo,
querendo encontrar
o mínimo de paz.
Se disserem que vivo,
digam que não.
Isso é mentira,
enorme ilusão.
Apenas respiro
o sopro da guerra,
o riso da morte.
JOEL MARINHO