O SEGREDO DA CARTA
Aquela carta, amarelada pelo tempo e guardada em uma gaveta, carregava o peso de um segredo. Porém, continuava selada da mesma forma em que fora depositada, havia exatos vinte anos, dias antes da morte de seu escritor, Seu Agenor Antunes.
Sua esposa, Dona Mariza, pensou durante muito tempo em abri-la, mas tinha medo do que poderia encontrar ali. Por isso, preferiu deixá-la guardadinha.
A única filha do casal, Samira, nem imaginava a existência de tal carta, pois aquela gaveta permanecia sempre fechada, e a chave estava sob o controle de Dona Mariza. Sempre que precisava limpar a casa e os objetos, a mãe fazia questão de limpar o cômodo, mas nunca abria a tal gaveta.
Samira nunca desconfiara. Pensava que aquilo fosse apenas um ritual da mãe. Até porque tinha tantas coisas para fazer que não lhe sobrava tempo para bisbilhotar uma gaveta que, supostamente, não escondia nada. Com o tempo, acabou se acostumando com Dona Mariza limpando aquele cômodo enquanto ela cuidava de outros móveis e outros pontos da casa.
Certo dia, Dona Mariza adoeceu. Samira enfrentou uma rotina de idas e vindas aos hospitais, até o dia em que a mãe precisou ficar permanentemente internada.
Aos poucos, o câncer maldito foi se espalhando pelo corpo, e ela foi morrendo devagar naquele leito de hospital.
Porém, antes de morrer, abriu uma bolsinha que mantinha ao lado do leito. Com a voz trêmula, já quase desaparecendo, estendeu a mão à filha, entregou-lhe uma chave e disse apenas:
— Segredo.
Em seguida, deu seu último suspiro.
Durante o processo de sepultamento e luto, Samira esqueceu a chave no bolso da bermuda que colocara no cesto de roupas sujas. Muito abatida, ficou sem forças até mesmo para colocar as roupas na máquina de lavar. E assim permaneceram por oito dias.
Mas havia chegado a hora de retomar a vida. Era preciso voltar à rotina, e chegou também o momento de lavar as roupas.
Jogou tudo na máquina, que começou a fazer seu trabalho. Logo apareceu um barulho estranho. Samira percebeu que havia algum objeto metálico misturado às roupas.
Desligou a máquina e foi procurar a origem do barulho. Meteu a mão no meio das roupas e encontrou a pequena chave, causadora daquela bagunça.
Enquanto colocava a máquina novamente para funcionar, ficou se perguntando:
— Mas de onde é essa chave? E qual será o segredo de que mamãe falou antes de morrer?
Então, lembrou-se.
A bendita gaveta.
Encaminhou-se até o cômodo, enfiou devagar e, apreensiva, a chave na fechadura. Girou-a e abriu a gaveta.
Bem no fundo, sozinha, estava aquela carta dentro de um envelope amarelado. O papel carregava as marcas do tempo e tinha aquele aspecto típico das cartas escritas antes da invenção dos e-mails e das mensagens de texto pelo celular.
Com a carta nas mãos, hesitou por um momento em abri-la. Mas não resistiu.
Abriu o envelope, retirou os escritos e começou a ler.
Seu corpo foi gelando. Um suor frio tomou conta dela. À medida que avançava na leitura, sentia-se cada vez mais fraca. Ao chegar ao final, seu corpo desfaleceu, e ela desmaiou.
Como estava sozinha, não soube quanto tempo permanecera caída no chão. Quando acordou, sentia o corpo dolorido, típico de quem desmaia e sofre uma queda.
Com o papel ainda nas mãos, continuou deitada, sem forças para se levantar.
À medida que foi recuperando as forças, levantou-se devagar e ficou pensando no que faria com aquela carta.
Como não teria coragem de contar aquilo a ninguém, foi até o fogão. Acendeu uma das bocas e queimou a carta.
O peso daquele segredo foi lentamente sendo consumido a cada lambida que o fogo dava no papel amarelado.
Samira suspirou aliviada.
Sabia que aquele segredo estaria guardado para sempre em sua memória. A chave seria apenas o seu próprio pensamento.
A não ser que houvesse uma cópia daquilo em algum outro lugar.
JOEL MARINHO