Na pressão somos formados,
e naquele vai e vem
surge nosso maior bem:
a vida, com seus babados.
Nove meses bem guardados,
presos dentro da barriga,
escutamos as intrigas
sem nada ainda entender;
e, na hora de nascer,
apanhamos sem ter briga.
Aqui fora, a gente aguenta
tapa no pé do ouvido,
até se perde o sentido,
e a pressão só aumenta.
Peia pra vinte jumentas
levamos todos os dias;
essa vida nos judia,
mais bruta que um bisão.
Aqui tudo é na pressão,
a vida não alivia.
Mesmo assim, eu lhe confesso:
gosto demais de viver.
Se mil vezes pudesse nascer
para viver nesse universo,
mesmo num mundo perverso,
eu voltava como gente.
Viver, sei, é exigente,
mas uma dádiva divina;
até a pressão ensina
que viver é excelente.
JOEL MARINHO