Joel Marinho
Entre letras e versos
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A ÁRVORE QUE COMPROU MACHADO AOS HOMENS

Naqueles tempos longínquos, as árvores viviam em paz e no comando de todas as coisas, e os homens ainda não existiam. Certo dia, os homens começaram a surgir aos poucos e, desprovidos de qualquer inteligência, logo as árvores passaram a cuidar dessa nova espécie. Davam-lhes frutos, cobriam-lhes de sombra para acalmar o calor e os protegiam de todas as mazelas.

 

Os homens não precisavam de casas nem de roupas. Viviam a ermo, debaixo das árvores, por vezes nos galhos, em uma paz enorme. A árvore rainha de todas as árvores se chamava Cecília e comandava a todos, inclusive aos homens.

 

Com o passar dos anos, foram surgindo outras coisas e, naquela manhã de quinta-feira, passava por ali um caixeiro-viajante vendendo todas as espécies de trecos. Entre eles, havia uma novidade: o machado. O homem logo se apaixonou por aquela ferramenta, mas, não tendo como comprar, ficou triste. Cecília, vendo a tristeza do homem, soltou umas folhas sobre ele, transformadas em dinheiro, para agradá-lo. E assim ele comprou o primeiro machado.

 

Com a ferramenta nas mãos, ele saiu a ermo, cortando outras árvores menores para construir uma roça e uma casa coberta com palhas. Mas a árvore-mãe nem ligou; afinal, ela era a mãe e amiga de todos, jamais achou que a desgraça chegaria até ela.

 

O homem passou a informação daquela bendita ferramenta a outros homens e não demorou para que todos eles tivessem conseguido, de alguma maneira, adquirir a bela boa-nova. Mesmo assim, Cecília continuava confiante por ser ela a grande mãe dos homens e de todos.

 

Mas os homens criaram confiança em si mesmos, adquiriram ego e logo passaram a derrubar árvores deliberadamente. Mesmo com a advertência de outras árvores sobre o perigo iminente que todas elas estavam correndo, Cecília não acreditava que aqueles a quem ela abraçou e cuidou com tanto amor e carinho seriam capazes de fazer tal atrocidade: derrubar e eliminar a própria mãe.

 

Um dia, pela manhã, antes do sol nascer, ouviu um burburinho e, quando deu por si, já estava cercada de uma dezena de homens, cada um com seu machado afiado nas mãos e já a cortando, sem nenhum remorso. Cada pedaço arrancado de seu tronco descia um caldo avermelhado: eram lágrimas da desesperança, chamadas de seiva.

 

Em pouco mais de duas horas de trabalho intenso, ouviu-se o barulho estrondoso no chão de Cecília, que tombava sem vida, vendo seu tronco chorar as últimas gotas de lágrimas, ao se acabar uma história milenar daquela que fora a mãe de toda a floresta.

 

A madeira retirada da velha árvore se tornou mesas, cadeiras e outros utensílios sem vida, e seus galhos se tornaram uma grande fogueira, a qual os homens fizeram para festejar a retirada do que eles chamaram de empecilho para construir uma enorme fazenda para criação de caprinos, bovinos e cavalos: o chamado desenvolvimento.

 

De tudo isso, sobrou uma grande lição: árvore que compra machado para dar de presente aos homens tende a virar vítima dos próprios homens, acabando consumida pelo fogo em uma enorme e ardente fogueira, em um dia qualquer.

JOEL MARINHO

Joel Marinho
Enviado por Joel Marinho em 05/10/2026
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