DURA VIDA
Lembro-me da minha infância:
Todos os dias, bem cedinho,
Ao cantar dos passarinhos,
Ouvia: “Vamos, crianças!”
Não tinha muitas bonanças.
Feito um burro de carroça,
E os calos nas mãos grossas,
Mesmo sofrendo, cantava;
Assim o mal espantava
Pelos caminhos da roça.
Difícil era estudar,
Porque tudo era distante.
Da roça vinha ofegante,
Naquele sol de rachar.
Pra na escola chegar,
Tinha que andar no mato.
Só para quem tinha tato
Naquele ritmo viver.
Tudo o que aqui vim dizer
Não é mentira, é fato.
Mas, pra falar a verdade,
Havia coisas legais:
Ter ao meu lado meus pais,
Também muitas amizades.
Às vezes bate saudade
Do cantar dos passarinhos,
Daquele banho cedinho
Naquele frio riacho.
Hoje eu procuro e não acho
Aqueles mesmos caminhos.
JOEL MARINHO