Joel Marinho
Entre letras e versos
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UMA CARTA PARA DEPOIS

Quantos anos ainda terei? Quanto tempo o oxigênio entrará pelas minhas narinas e inundará meus pulmões com esse gosto delicioso de vida? Até quando o meu coração estará batendo normalmente, bombeando sangue para irrigar os jardins do meu corpo?

 

Essas são perguntas que eu me faço quase todos os dias. Não que isso me cause medo, indignação, desespero ou ansiedade. Aliás, como é bom não saber até quando faremos parte desta vida!

 

Dito isso, deixo esta carta para depois. Depois que eu me for e alguém, por acaso, lê-la.

 

Direi que fui muito feliz, mesmo com as intempéries da vida. A pobreza me fez sofrer bastante. A fome, em uma fase dolorida da minha vida, foi um dos grandes problemas e talvez uma das coisas que mais me fizeram mal.

 

A fome é uma desgraça que nenhuma pessoa deveria sofrer. No entanto, sei que muita gente ainda sofre com isso e, só de pensar na dor que ela causa, ainda sofro ao recordar aqueles tempos difíceis.

 

Mas, da vida, também tive muitos acontecimentos excelentes: o nascimento dos meus filhos, o amor que pude dar às pessoas e a reciprocidade que recebi, as faculdades que cursei, as profissões que exerci, os sorrisos que pude dar e tantos outros que recebi.

 

Esses pequenos gestos de felicidade, juntamente com os textos que deixei escritos, acabaram me tornando um homem completo. Não tenho do que reclamar.

 

Quanto à mulher com quem divido angústias e alegrias, deixo a ela todo o meu carinho. Digo que fui tão completo no amor quanto uma criança que encontra um pote de mel e tem a felicidade de tomá-lo à vontade.

 

Ela me mostrou o ápice da felicidade com sua alegria de viver e sua força de vontade.

 

Ah, como eu amei!

 

Enfim, tenho ainda muita coisa a viver e, quem sabe, uma hora volto aqui para ir complementando esta carta incompleta, pois ainda não tenho planos nem vontade de ir embora.

 

Mas, como a vida é essa caixinha de surpresas, pode ser que ela acabe por aqui. Aí, sim, mesmo que não seja mais escrita nenhuma letra por mim, ela estará completa.

 

Todavia, espero voltar outras vezes para escrever esta CARTA PARA DEPOIS.

JOEL MARINHO

Joel Marinho
Enviado por Joel Marinho em 03/11/2026
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